De quase nada ou pouca coisa lembro ainda. Por quanto tempo foi verdade, se houve mesmo um tempo de, se passou deixando rastro de saudade em sua vida, ou se nem meu nome habita as esquinas dos seus sonhos. Sei que eu ia em dezessete e você era doutor. Tinha barba e gravata de bolinhas. Do meu quarto em pensionato e do muro que arranhava. E foi só mais um arranhão dentre tantas cicatrizes que guardei daqueles dias. Cicatriz de abandono, cicatriz de solidão, cicatriz que assim me fez, me fizeram, me tornaram o que sou: caule seco, redobrado, origami com sabor de peixe podre. Abandono nas madrugadas, pôr-do-sol, amanhecer. Os almoços de domingo, feriados, dias santos. Dos Natais e Carnavais. Reveillon, aniversário. Telefone desligado, muita chuva, compromissos. Dente de siso inflamado, filho de braço quebrado, cadela parida, ninhada perdida. Telegramas, raras vezes. Um perfume da Avon. Uma pulseira de pedrinhas coloridas. Uns bombons. Um cinema no meio da tarde. Um cochilo no motel. Um banho frio e apressado. E o dia do nunca mais. Com uma flor e um cartãozinho onde escritas estavam as cinco letras que choram. Um espinho. E pra sempre esse sangue hemorrágico, transparente nas palavras, oceano onde navega minha vida adormecida. De quase nada. Pouca coisa. Lembro, ainda?
21/05/2010
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