21/05/2010

Maria

Diziam dele que era macho e disso não sabia eu quando dele isso diziam pois era o tempo em que eu nada dizia das conversas das irmãs e de macho só conhecia o galo velho lá no fundo do quintal. Diziam dele que montava as éguas e as fazia galopar por estradas nunca vistas campos largos e planícies que eram rota pras estrelas e disso não entendia eu que pensava só os aviões os pássaros um ou outro anjo voassem pelo céu. Diziam dele que quando passava pelos caminhos deixava flores despetaladas pranto dor parto e morte e disso eu não sabia que se é parto é a vida não a morte isso não. Diziam dele tanta história tanta lenda e raconteio que era nele que eu pensava quando a noite acontecia quando o dia amanhecia quando a chuva desabava se dormia ou se comia nada mais tinha valência e a vida era toda feito história de fada de felizes para sempre. Diziam dele um nome outro não aquele que me disse quando se aprochegou e me pegando pela mão foi andando rumo à lua lá no fundo do quintal. Galo velho. E que galope que nada só a saia arregaçada um punhal cravado forte uma dor rompendo a noite e a mão de gosto azedo abafando meu gemido e os dentes em meu pescoço. E o sangue fez-se rio onde ele se afogou. Mas ainda dizem dele.

E dizem tanta coisa, contam histórias nas fogueiras, grandes feitos e bravatas. Dizem, até, que ascendeu feito santo imaculado e seu corpo fez-se nuvem, pomba branca, lençol seco no varal. Escuto tudo e nada me tira os olhos dos bordados. Ainda uso a mesma agulha que, há tempo tanto, na beira do rio, numa noite de luar, perfurou-lhe a jugular.

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