— É rim, doutor, tenho certeza. Dói quando sento, arde quando mijo, minhas pernas ficam mais duras que um pedaço de pau. Dói feito a porra se fico em pé, dói mais que a vida, se deito. Doutor, não tenho posição pra nada, pra qualquer coisa, o senhor entende? Só pode ser rim!
Sérvulo Márcio de Toledo Muller, o médico, olhava por cima dos óculos de aros de ouro branco a caridade que faria à dona Suely, irmã de sua secretária. Rodava entre os dedos finos de unhas polidas a grossa Aurora com um diamante incrustado na tampa, presente da mulher magra e loura que sorria na neve de Aspen, emoldurada de aço escovado.
— Mijei sangue, doutor, essas coisas acontecem quando fico de chico, mas num tava. Só pode ser o rim.
Jaleco longo sobre a camisa de listras , Hermenegildo Zegma. Punhos brancos e antigas abotoaduras brasonadas. Minúsculos regadores aguavam minimalistas florzinhas no azul marinho da gravata Hermes e o decote à sua frente sugeria o Monte Olimpo, morada de todos os deuses, néctar e ambrosia, quiçá leite de Amalthea na garoa do fim da tarde.
—Tomei chá de quebra-pedra, mama cadela, picão e nem assim. Trinta copos d'água por dia, banho quente na banheira da vizinha, o senhor não acha que só pode ser rim?
Nenhuma gravura numerada, apenas óleo sobre tela. Nenhum furo nos Isfahan e Tabriz onde os pés de unhas um tanto longas, vermelhas, cintilantes, revezavam-se num cruzar de pernas grossas, balançando as plataformas de cortiça.
— É o rim, doutor?
Vísceras duplas que segregam a urina. Que é duas vezes maior que o outro. Posto à margem. Marginalizado. Dois dedos de raízes grisalhas em meio à cabeleira loura. Linho sintético no casaquinho mal cortado. Um buraco na renda da calcinha. E a colônia da Avon perfumou a distância que o separava do quê, naquele instante, era tão próximo.
— Dois, dona Suely, somos dois, nós, digo, são dois, os rins....
Sérvulo Márcio de Toledo Muller, o médico, olhava por cima dos óculos de aros de ouro branco a caridade que faria à dona Suely, irmã de sua secretária. Rodava entre os dedos finos de unhas polidas a grossa Aurora com um diamante incrustado na tampa, presente da mulher magra e loura que sorria na neve de Aspen, emoldurada de aço escovado.
— Mijei sangue, doutor, essas coisas acontecem quando fico de chico, mas num tava. Só pode ser o rim.
Jaleco longo sobre a camisa de listras , Hermenegildo Zegma. Punhos brancos e antigas abotoaduras brasonadas. Minúsculos regadores aguavam minimalistas florzinhas no azul marinho da gravata Hermes e o decote à sua frente sugeria o Monte Olimpo, morada de todos os deuses, néctar e ambrosia, quiçá leite de Amalthea na garoa do fim da tarde.
—Tomei chá de quebra-pedra, mama cadela, picão e nem assim. Trinta copos d'água por dia, banho quente na banheira da vizinha, o senhor não acha que só pode ser rim?
Nenhuma gravura numerada, apenas óleo sobre tela. Nenhum furo nos Isfahan e Tabriz onde os pés de unhas um tanto longas, vermelhas, cintilantes, revezavam-se num cruzar de pernas grossas, balançando as plataformas de cortiça.
— É o rim, doutor?
Vísceras duplas que segregam a urina. Que é duas vezes maior que o outro. Posto à margem. Marginalizado. Dois dedos de raízes grisalhas em meio à cabeleira loura. Linho sintético no casaquinho mal cortado. Um buraco na renda da calcinha. E a colônia da Avon perfumou a distância que o separava do quê, naquele instante, era tão próximo.
— Dois, dona Suely, somos dois, nós, digo, são dois, os rins....
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