21/05/2010

Amélia

"Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto". Franz Kafka


Noutra manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Amélia deu por si na cama com a calcinha molhada. Tesão de mijo . Uma curva que cruzasse o banheiro como o arco-íris cruza o céu e se esparramasse em gotículas de ouro liquefeito pelo piso e tampas do vaso. A espuma, borbulhante feito champagne, ou um chopp com as amigas no final do expediente e aquele papo: bundas, futebol, bundas....A calcinha no canto do box , a toalha molhada sobre a cama desfeita, as revistas esparramadas pelo chão... deixaria o buço crescer, tortura nunca mais, abaixo a depilação, os pelos, unidos, jamais serão vencidos. Passou a mão na bunda da empregada enquanto tomava um café forte e sem açúcar, abriu a porta do elevador pra vizinha e aqueles peitões... rebaixar o carro, trocar os pneus por uns de aro 16, quem sabe um som com módulo de 1000 wats......e Giuliano, o gato sarado, leitor de Paulo Coelho, dizendo que a amava mais que ontem e menos que amanhã... Patrício, o do lar, que descolava com a mulher grana pro dentista e gastava tudo com champagne e morango no motel...Silvinho, que sonhava ser modelo e ator, e desfilava seu corpinho anoréxico nas areias de Ipanema enquanto Amélia arrebentava no futivolei...

Mas, na verdade, às vésperas de completar 30 anos, Amélia queria casar e sonhava com um homem doce, terno e meigo que a esperasse todas as noites com o jantar quentinho, o corpo perfumado, os abraços acolhedores, os beijos promissores. Com quem pudesse construir a vida e uma casa em Cabo Frio. Com quem tivesse filhos; um menino para dividir com ela as tardes de domingo no Maracanã e uma menina, doce, terna e meiga como o pai.

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