21/05/2010

...e no meio do caminho tinha um Pedro

- Telefone só toca de madrugada pra anunciar desgraça, pensou, procurando no escuro do quarto pelo maldito aparelho, procurando na neblina da memória pelos benditos parentes...
- Alô!
- Oi!
- Alô... alô!
- Oi, meu bem.
- Quem ta falando, sabe que horas são?
- Sou eu, amorzinho.
- Que merda! Eu quem? Que raio de amorzinho é esse?
- Sou eu, o Pedro, seu vizinho de frente.
- E eu lá conheço Pedro? Vai passar trote na comadre da sua madrinha
- Calma, você fica linda zangada ainda mais de camisolinha preta.
- E como você sabe que estou de camisola preta?
- To te vendo de binóculos
- Tarado, voyeur, filho da...
- To mais tarado ainda porque você deixou cair a alcinha da camisolinha...
- Tem mais o quê fazer não, seu Pedro? 1 hora da manhã e você vendo vizinha de binóculo?
- O mais que eu tenho de fazer, não quero fazer sozinho, chega na janela e olha pra cá, quarto andar, vou acender a luz...

Perdeu a fala. Do outro lado da rua, na janela do quarto andar, o peito onde sempre sonhara desenhar seus sonhos, a cabeleira negra onde sempre fantasiara perder seus dedos, o sorriso branco, os olhos, com certeza, seriam azuis...

- E aí? Ta me vendo?
- Mais ou menos, ta distante, queria ver mais de perto.
- Posso ir aí?
- Não, Pedrinho, o porteiro, você sabe como é, deixa que eu vou.
- Como você preferir, não se importa com a chuva?

Tirou a camisola, a calcinha, vestiu a Burberry, escovou os cabelos, um perfume discreto e as botas de salto alto. Nem esperou pelo elevador, desceu pelas escadas. E pisou na calçada no mesmo instante em que um táxi freou. Temporal, vôos cancelados e a cara feliz do marido ao vê-la esperando por ele na chuva. Abriu a capa, tarada. Ali mesmo, junto ao muro, o tesão despertou do enfado adormecido entre seus lençóis de seda.

No prédio em frente, na janela do quarto andar, Pedro, com a mão no bolso da calça, acariciava o volume imenso de dinheiro que recebera do marido piloto...

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