21/05/2010

Maria

Esvaziou gavetas, rasgou cartas, destruiu lembranças. Arquivou mistérios. Afogou gemidos. Sufocou as lágrimas. Algemou perdões. Enxergou claro o arco-íris que cruzava o céu. Lembrou do vestido negro. Das sandálias altíssimas. Dos brincos que lhe faziam cócegas no pescoço. Do batom. Riscou os olhos com negros traços. Lembrou de quantas mãos passaram por seu corpo. Quantas bocas promessas lhe fizeram. Quantas línguas sugaram seus orgasmos. Nada que preenchesse o vazio que era em torno dela, que era ela. Continente e conteúdo. Nada e coisa alguma. Passos trôpegos e as madrugadas. Cambalhotas e piruetas. Tripas e coração. A história que esquecera secando no varal. A história que precisava ser passada a ferro.Desamassada. Engomada. Trancafiada, sem nódoas, no fundo doarmário. Talvez um dia, inverno, sentisse frio. Talvez lá longe, muitos anos, viesse a coragem de andar de costas. Arrependimento e perdão. Quando fosse outono. Quem sabe?No redemoinho de folhas secas e o gosto doce de pêssego maduro. Mas era verão e suas tempestades. Cortou unhas e cabelos. Ensaiou gestos e esgares. Comeu ausência, vomitou saudade.Viu-se inseto. Sentiu-se réptil. Quis ser leoa. Revolveu a terra. Replantou um sonho. Provocou os anjos. Despertou os deuses. Exorcizou demônios. Dançou sobre os abismos. Mergulhou nos pântanos. Escalou as nuvens.
E, quando ele chegou, abriu as pernas.

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