21/05/2010

Maria

Percebeu algumas manchas. De certo foram feitas pela dor que marcara algumas perdas e, como tinta que pinta o adeus, dera aquele colorido sépia à algumas dobras da pele. Desamassou algumas rugas. De certo foram feitas pela dor que marcara algumas insones madrugadas e, como cinzel que esculpe a vida, dera à pele aquela aparência de tempo que passa. Acariciou alguns lugares onde a marca de outras mãos deixara cicatrizes que para sempre restariam, abertas, à luz de cada amanhecer.

E, lentamente, com a placidez dos lagos enluarados, pendurou a pele no cabide, atrás da porta. Abriu a porta pra aquele tempo que começava nas marcas de todo o tempo, e foi pro jardim lavar a alma de sereno e orvalho.

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