21/05/2010

Clara

Quantas mulheres somos cada mulher que nos compõe? Lembranças do que nos tocou, espanto do que nos toca, esperança no que nos tocará para sempre e a partir de tudo. Nos encontros e nas perdas, refazendo a cada vez a vez, o tudo todo. Sem receitas ou metafísica. Fisicamente tocadas pela poesia em todos os seus nomes, que, no fundo, é o toque do nome que nos faz assim: mulheres.

Das tranças de minha mãe, avós e tias, eu trouxe a trama de cada nó. E o aperto e o abraço. A porta aberta. A pretensão de escolhida, de ser salva e o silêncio. E o lamento e todos os muros. As velas e os rituais. E a fome e o jejum. A repetição de sacros textos, sacros ventres, vendavais e sacros ofícios. Trouxe a poeira dos desertos e o gosto do sal. E as veias e as vísceras e as entranhas e as mãos de engomar toalhas brancas. E a mesma mania de repassar a alma o tempo todo. Sou quantas sou, eu, a mulher que sou, apenas sou a pena de ser apenas eu despertada enquanto as outras dormem.

E dorme a menina que tem medo de escuro e alma penada. Ela é aquela que senta no chão, escorrega dos sofás alheios, dorme sempre sem jantar. E dorme a moça que faz versos, poeta compulsiva, alucinada que acha que as palavras aprendidas nas insones noites de leituras e prática de desvairadas escrituras são bastante para expressar a poesia despertada. Ainda dorme, sem jantar.

E dorme a mulher, a fêmea, a que sente pelo corpo todas as linhas da palma da mão do homem, macho, lobo voraz. Conhece-lhe as impressões digitais, pois com elas borda a alma onde o toque desses dedos, dessas mãos rompem todas as represas, criam todas as cascatas. É aquela que exala o almíscar de todos os cios. É a que empresta os olhos para que a criança chore seus medos, para que a poeta chore seus sonhos. É a que chora o tesão de ser tangida e retocada por palavras. Ainda dorme, sem jantar.

Mas não durmo eu, há muito não durmo. E sou a que não tem medo do escuro e seus fantasmas, mas do hoje, do amanhã, do sempre. Sou aquela que veio pela vida resistindo a uma entrega plena e generosa com medo de que o orvalho frio da manhã seguinte inunde qualquer possibilidade de continuar descalça. Sou aquela que não quer colo, mas sentar ao lado, ombro a ombro. Sou aquela que não quer um beijo, pois que quando beijo é o substantivo em questão, prefere seja o artigo definido. Sou aquela que chora as próprias lágrimas, renasce da própria dor, e faz a própria, única e intransferível escolha.

Da menina, tenho a fome que se sacia no mel do riso. Da poeta, tenho a fome que se sacia na palavra. Da fêmea, tenho a fome que nunca se sacia. Acordada, sem jantar, exponho, sem pudor, minha fome amanhecida. Na junção de todas as que me habitam e somos eu. É mágico o instante das 4:54 da manhã. Por detrás das minhasjanelas, a lua que amarelas nuvens tentam impedir o brilho. À frente, uma ameaça de sol que o fim da noite ainda impede o brilho. E isto reflete a minha alma e o que por ela passa agora. A consciência do sentimento que me derruba todas as defesas. E porque é assim que é, eu o não saberia dizer de outra forma. É seu o direito de fazer com o que transborda pelas margens, o que bem ou mal quiser, não me pertence mais.

Estou nua, sinto frio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário